A voz profética da Igreja – Parte III

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“O Pranto de Jeremias”, de Cândido Portinari (1944) – Na coleção do MASP

                Retomamos nossa apresentação da palavra profética no Antigo Testamento nos voltando para o seu polo negativo. Trata-se dos chamados “oráculos de julgamento” que encontramos em textos como Isaías 1:11-17:

 11 De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? — diz o SENHOR. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes.  12 Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios?  13 Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniquidade associada ao ajuntamento solene.  14 As vossas Festas da Lua Nova e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer.  15 Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue.  16 Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal.  17 Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas.

                 Porque a palavra crítica é um componente tão importante da voz profética? Porque se quisermos fomentar uma vida alternativa precisamos criticar as estruturas da cultura existente em nosso redor. No caso de Isaías 1, a crítica está voltada para prática meramente formal do culto. A crítica aqui está dirigida àqueles que não negligenciam o formalismo da religião, mas que não se importam com a sua essência, particularmente no tocante à prática da justiça para com os pobres e desvalidos. Essa é a vida “abundante” para a qual os profetas conclamam o povo? Não, é uma espécie de vida “padrão”, sem qualquer diferencial, que qualquer um pode viver. É preciso que a palavra profética venha com força para denunciar, expor, atingir, agredir essa forma de vida. É por isso que na narrativa do chamado de Jeremias, as palavras de Deus ao comissionar o profeta são (Jr. 1:10):

 10 Olha que hoje te constituo sobre as nações e sobre os reinos, para arrancares e derribares, para destruíres e arruinares e também para edificares e para plantares.

                 Não é possível fomentar uma nova consciência, uma nova prática, uma nova vida, sem questionarmos uma consciência entorpecida, uma prática vazia, uma vida sem rumo.

                A palavra crítica é tão importante e presente que para muitos ela se confunde com a totalidade ou a essência da palavra profética. Essa palavra crítica não é a única dimensão do ministério profético, mas ela é fundamental. Ficamos muito calados e omissos diante do erro e do mal. Nos conformamos muito fácil à mentalidade corrente, cheia de ambição e de individualismo, que nos cauteriza a consciência com relação às necessidades do mundo. Claro que também é possível que tenhamos um belo discurso voltado para a justiça social, que advogue a causa dos pobres e necessitados, sem realmente olhar para nós mesmos e sem questionar como estamos distantes desse ideal, ignorando as necessidades dos que estão mais próximos de nós, e o imperativo de exercer a justiça para com eles: nossos funcionários, amigos, familiares, irmãos na igreja… A palavra profética do Antigo Testamento nos desafia a cultivarmos uma nova forma de vida. Esse desafio permanece vivo para a Igreja de hoje. Mais sobre isso em nossa próxima postagem.

 

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